A redução da jornada de trabalho pode transformar a operação de transportadoras, frotistas e empresas de logística. O desafio será manter as entregas, controlar os custos e garantir a disponibilidade da frota.
O fim da escala 6×1 avançou no Congresso e, em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou a proposta em dois turnos. O texto prevê dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial, e a diminuição gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas. A mudança ainda depende de promulgação para entrar em vigor. [1]
Mas o que isso significa, na prática, para o transporte brasileiro?
Os números que merecem atenção
R$ 11,9 bilhões por ano: esse é o custo adicional estimado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) para o setor caso a jornada seja reduzida para 40 horas semanais, mantendo os salários.
8,66% de aumento médio no custo da mão de obra: é a estimativa apresentada no estudo da CNT para esse mesmo cenário.
65,1% das transportadoras apontam a falta de motoristas como principal dificuldade de contratação: o dado foi divulgado pela CNT em junho de 2026, evidenciando que a disponibilidade de profissionais já representa um desafio para o setor. [2][3]
Esses números não significam que todas as transportadoras terão o mesmo aumento de custos. O impacto dependerá da estrutura de pessoal, das jornadas praticadas, das convenções coletivas e da capacidade de reorganizar as operações.
Como as empresas de transporte podem ser afetadas?
. Aumento dos custos operacionais
Para manter o mesmo volume de viagens e entregas com uma jornada semanal menor, algumas empresas poderão precisar contratar mais profissionais, reorganizar turnos ou recorrer a horas extras quando legalmente cabíveis.
Na prática, isso pode pressionar a folha de pagamento e reduzir as margens de transportadoras que trabalham com contratos de frete de valores já negociados.
. Pressão sobre o valor do frete
Se os custos operacionais aumentarem sem um ganho equivalente de produtividade, as transportadoras poderão precisar renegociar contratos e repassar parte das despesas aos clientes.
Esse efeito pode alcançar toda a cadeia: indústria, distribuidores, varejistas e consumidor final. Entretanto, o repasse não é automático; depende da concorrência, dos contratos e da capacidade de absorção dos custos por cada empresa.
. Mais pressão sobre a disponibilidade de motoristas
A mudança ocorre em um setor que já relata dificuldades para preencher vagas. Segundo dados apresentados pela CNT, 44,6% das empresas pesquisadas afirmaram possuir vagas em aberto.
Por isso, a adaptação não será apenas uma questão de mudar a escala no papel. Será necessário planejar a cobertura dos turnos, os períodos de descanso, as rotas e a disponibilidade de profissionais para manter o nível de serviço.
. Prazos e produtividade sob pressão
Centros de distribuição, operações de carga e descarga e entregas urbanas dependem de equipes coordenadas. Uma escala mal planejada pode gerar ociosidade em determinados horários, gargalos nos armazéns e atrasos nas entregas.
Por outro lado, empresas que investirem em roteirização, automação, gestão de jornada e planejamento de demanda poderão reduzir desperdícios e compensar parte da pressão sobre os custos.
O que as transportadoras devem fazer agora?
A preparação precisa começar antes da entrada em vigor das novas regras:
- Revisar custos: calcular o peso da mão de obra por rota, veículo, contrato e operação.
- Simular cenários: avaliar diferentes escalas, necessidades de contratação e possíveis horas extras.
- Revisar contratos de frete: verificar cláusulas de reajuste e condições para renegociação.
- Planejar a frota e as equipes: alinhar manutenção, disponibilidade de veículos, motoristas e janelas de entrega.
- Aumentar a eficiência operacional: reduzir quilômetros improdutivos, tempo de espera e viagens sem carga.
- Acompanhar a regulamentação: confirmar os prazos e as regras definitivas antes de alterar escalas e contratos.
Conclusão: o impacto vai além da folha de pagamento
O fim da escala 6×1 representa uma mudança importante nas relações de trabalho. Para os profissionais, amplia o tempo de descanso; para as empresas de transporte, exige planejamento financeiro e operacional para preservar a produtividade e a qualidade do serviço.
O dado mais importante é que a mudança chega a um setor que já enfrenta dificuldades para contratar motoristas e manter operações contínuas. Antecipar cenários, medir custos e melhorar a eficiência será fundamental para atravessar essa transição com menos riscos.
Na logística, eficiência não é apenas entregar mais. É manter a operação funcionando com previsibilidade, segurança e controle de custos.





